Quinta-feira, Julho 6

Gosta?

Gosto de ser puta, de gozar loucamente, urrar de prazer, fazer cara de safada. Pompoar, piscar, bater, espernear, rir e chorar, o meu prazer acima de tudo. O seu, quem sabe, depois. O nosso? Ah, meu anjo, você não me acompanha não, sou feito prisma, aglutino cores quando bem entender. Sabe o verdadeiro sentido da língua? Não antes de me conhecer. Chupada, entende sua maestria? Ter gana, fome, vontade, objetos fálicos nos devaneios, sugar a alma de um pau?

- Mariana, vem jantar, minha filha. A comida vai esfriar.

É. Você não sabe, volto mais tarde e continuo.

Domingo, Julho 2

Indecisão

Não sei o que quero. Quero aquele friozinho no colo, o arder na espinha, chorar de dor, meticulosamente. Ensaiar aquela cena em que choro, bastante, por ser assim, por não conseguir transparecer as fraquezas, ou mostrá-las covardemente, só o menos importante e eficaz.

Segunda-feira, Maio 8

Dylan, o Bob
Cheirando a tabaco, diversas marcas. Assim eu me encontrava naquele pub mexicano de dimensões minúsculas. Uma banda de post rock qualquer fazia um curto show, que bancaria mais uma rodada de bebida pra chegados. Garçonetes passeavam, em suas bandejas, porções de nachos genéricos temperados a uísque. Decerto, isso causaria, no mínimo, diarréia. Meu desjejum fora feito horas antes. Ainda bem. Saí do pub, era matinê ainda, caminhava por Londres, logo o acender das luzes desnudaria a cidade, pacata naquele fim de tarde. E aqui começa a história de Godinho, sujeito estranho e amigo que fiz nesse meu exílio. O desenrolar começa ainda naquela tarde. Achei Godinho numa esquina, entregue à bebida, barba por fazer, cabelo microfone e uma camisa do Flamengo surrada, com um furo imenso no Lubrax. Deitado no chão frio, olhando suas mãos. Parei e fiquei a admirar aquela cena, estático, não sei ao certo, alguma coisa me fascinava. Godinho me encarava, e logo emendou: - Tu sabe quem foi Zico, mané? Respondi que talvez. Godinho começara a cantar o hino do clube, com voz embargada. Levantei-o, um tapinha honesto nas costas e levei-o pra comer algo.
Anos depois, caminhávamos, Godinho e eu, pela mesma calçada, rindo de alguma merda qualquer, quando nos deparamos com Bob Dylan, mãos no bolso, cabisbaixo, vindo em nossa direção. Quando chegamos perto, disse-lhe: - Ei Bob! Dylan levanta a cabeça, sorri, cumprimenta-nos. Apresento Godinho. Dylan: - Você é o Defuntor Autor? Godinho diz: - Eu sou quem você quiser. Bob fita-o docemente. Silêncio. E Godinho continua: - Que tal saírmos desse frio e ir forrar o estômago? Dylan reage bem à proposta e emenda: - Conheço um ótimo lugar, aqui perto, que servem os melhores nachos fora da América. Godinho me encarou com uma expressão risonha e irônica, eu só pude dizer, 'Ele é o Dylan, cara.' Fomos os três, com as mãos no bolso.

Quinta-feira, Abril 27

Ele perdeu... (parte I)

Páris não acreditou, mas não mesmo. O amor de sua vida escapuliu de seus dedos. Nem isso, já que não pôde tocá-la, não do jeito que queria.

Páris, rapaz aparentemente simpático, inofensivo. Carrega nos seus 27 anos um despertecimento, como outros, não sabe a origem de sua angústia. Trabalha muito, ganha pouco, o que garante sua próxima página, mal escrita, ultimamente.
Páris mora só, num estúdio no velho centro paulista, rodeado de sebos, sua religião. Come mal, dorme pouco, fuma muito. Páris segue uma rotina totalmente nauseante, mais sistemática impossível. Acorda cedo, come seu pão, e sai com sua mochila. Vai para a estação Santa Cecília, pontual, sempre olhando pra baixo, só quando avista uma rua, desvia o olhar.
No metrô, Páris tira seu livro e se distrai, enquanto mundos de infinitas pessoas o rodeiam. Mas um mundo, em particular, chamaria sua atenção. Não agora, daqui a pouco. Páris anda resfriado mas não quer se cuidar. A próxima estação é anunciada pelo locutor, as portas se abrem. Uma pequena entra despercebida como outras, mas não para Páris. Ele ainda não a viu, mas estranhamente sente uma coceira que começa na nuca e invade suas costas, a blusa de algodão só atrapalha, e Páris se vê na obrigação de levantar a cabeça. Seus olhos fixam na pequena. Doía de tanto que ardia, de sono e de deslumbre.

Segunda-feira, Abril 17

O Retorno

Estou ressuscitando isso aqui, logo mais, alguns contos e principalmente devaneios

Terça-feira, Setembro 21

Ela é mais sentimental que eu
Me sinto sozinha. Sempre. Sei que te enrolo e sei também que me olha com reprovação. Você está com olheiras horríveis, aliás.
Sei que me acha prolixa, que não sei o que quero, que estou fazendo tipo. Um tipo assim. Assim assado, na verdade passada, do
ponto. Que não sou bem digerida e bem degustada. Que não sou sexy, ou que odeio lingerie. Que sou reacionária, careta, romântica, rosa. Que sou um fracasso, que não sei me deixar levar pelas
emoçòes, ou mesmo pelo desejo, que não sinto tesão, nem abro a boca ou fecho os olhos.
Mas o que você talvez não saiba é que reprimo tudo isso. Por culpa? Eu diria por medo, por falta de ousadia. Por causa da sociedade, que julga sem saber, que aponta os dedos, que te coloca na mente sem pudor, não tive nem a chance de ser coberta por uma fina seda.
É pecado se apaixonar? Do meu jeito? O meu jeito? Qual o problema do meu jeito? Não posso sofrer em silêncio? Não posso amar platonicamente? Suspirar calada, olhar sem precisar dar o próximo passo?
Serei eu complicada? Acho que sou madura. Tenho 18 anos. Tá bom. 16. Mas sei o que sinto. Não me sinto confusa, apenas não sou como todo mundo. Não vou colorir meus sentimentos agora, vou deixar no esboço, no rabisco.
Por que estou chorando? Vira pra lá, não quero que me veja. Vira pra lá, já disse. Tira a mão da frente, mostra sua cara ordinária. Admite que está apaixonada e sofrendo. Admite, droga!

Mariana o desfigura em pedaços. E se vê desfigurada. Tanto fora quanto dentro.

Sexta-feira, Setembro 3

Tempo

O tempo é implacável. Preciso. Deparei-me com aquela foto 3x4 sua, e de queima roupa lembrei de um passado desbotado, mas feliz. Foto sua, esta, marcada com lágrimas ressecadas que um dia ousei derramar, de digitais minhas que um dia poderão me incriminar. Mas nada disso importa. Olhando essa foto, com suas devidas dobras e estrias, uma película invadiu detrás meus olhos, brotou lembranças e vestidos. Cabelos.
Recordo-me da época que fumávamos escondidos. Que você declamava seus poemas, sempre feliz. Que me pagava sorvete de limão. Ou quando pedia que controlasse meu cabelo. Do seu vestido vermelho com laço azul, que mais parecia roupa de dormir. Era melhor, pois tinha a breve sensação de filma-la na melhor parte do dia, vendo-te acordar. E sorrindo. Pessoas não são mal humoradas quando acordam?
De sua cara cítrica quando apontava seu cabelo preso. De seu orgulho em ter vinte gatos. De sua audácia em escrever. De como se entrega quando beija.
Tudo isso passou. E rápido. Mal consigo ver seu rosto agora. Mas às vezes passo no nosso cantinho, lá mesmo, e tudo está provocado. Parecendo uma cena que será filmada. A luz quase não ajuda, mas qual a necessidade, se a cena é de amor?